sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Lula, Chávez e Tsipras: Uma comparação ridícula! - por Marcos Doniseti!

Lula, Chávez e Tsipras: Uma comparação ridícula! - por Marcos Doniseti!

Em 2002, 34 ,4% dos brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza.


Paulo Nogueira, do 'Diário do Centro do Mundo', escreveu aquele que é um dos piores textos que já li, na minha vida, a respeito da situação política de algum país. 

A comparação feita no mesmo entre os governos de Lula, Chávez e Tsipras é totalmente patética e ridícula, pois ela ignora as especificidades de cada país e de cada sociedade e que, além disso, se encontravam em momentos e ciclos históricos distintos quando estas lideranças chegaram ao comando de seus países. 

Senão, vejamos:

1) Sistema Político: Em primeiro lugar, o PT nunca obteve, sozinho, a maioria absoluta dos votos para o Congresso Nacional. 

Enquanto isso, Chávez sempre desfrutou dessa maioria, com o PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela) elegendo a maioria absoluta dos deputados federais, dos governadores de estado, dos prefeitos e ainda tendo maioria no Poder Judiciário e um sólido apoio das Forças Armadas. Chávez também chegou a receber autorização da Assembleia Nacional (o Parlamento venezuelano) para governar com base em leis habilitantes, ou seja, decretos. 

Foi graças a isso que Hugo Chávez pôde, por exemplo, reorganizar as Forças Armadas e nacionalizar o setor petrolífero. 

Aliás, Nicolás Maduro, o sucessor de Chávez, também faz uso de leis habilitantes para poder governar.

Lula e Dilma nunca desfrutaram de poder semelhante aqui no Brasil, tendo que negociar no Congresso Nacional (Bicameral) a aprovação de todos os projetos de leis e de medidas provisórias que desejam ver aprovados pelo Poder Legislativo. 

E o Syriza grego também chegou muito perto de obter a maioria absoluta na mais recente eleição grega, elegendo 149 de 300 deputados do Parlamento grego (49,7% do total). E bastou ao partido fazer um acordo com um partido de Direita nacionalista (os Gregos independentes), que elegeu 13 deputados, para que Alexis Tsipras desfrutasse de maioria absoluta no Parlamento grego.

Também é bom não esquecer que os Parlamentos grego e venezuelano são Unicamerais, ou seja, não tem Senado, uma instituição extremamente conservadora em praticamente todos os países nas quais ele existe e que, no Brasil, é muito poderosa. 

Já no Brasil, o máximo a que o PT chegou foi a 89 deputados federais, nessa legislatura que se encerra (2011-2014), elegendo apenas 17,3% do total dos deputados federais. E para a próxima legislatura (2015-2018) a situação do PT piorou muito, pois elegeu 70 deputados federais (apenas 13,6% do total). O PCdoB, aliado mais próximo e mais antigo do PT, também encolheu bastante na eleição de 2014, elegendo apenas 10 deputados federais, contra 15 que tinham sido eleitos em 2010.

Esse enfraquecimento do PT e do PCdoB tornou o governo Dilma ainda mais dependente de partidos e legendas conservadoras para poder governar. 

Nem Tsipras e nem Chávez jamais tiveram tamanha dependência de partidos conservadores para poder governar. 

E o PT nunca elegeu, também, a maioria dos governadores de estado e dos prefeitos e tampouco dos Senadores.

Além disso, o contexto histórico no qual Lula, Chávez e Tsipras ascenderam ao poder é totalmente distinto, não podendo ser objeto de qualquer tipo de comparação. 

Senão, vejamos:

A) Chávez se elegeu Presidente da República após vários anos seguidos de uma brutal crise econômica e social na Venezuela. Quando ele tomou posse, o sistema financeiro do país (público e privado) tinha falido, a taxa de desemprego superava os 25% e quase 61% dos venezuelanos viviam abaixo da linha de pobreza em 1997, ano anterior à sua vitória na eleição presidencial. 

Neste contexto, as elites dirigentes da Venezuela estavam completamente desmoralizadas (os partidos mais fortes eram a AD e o Copei, ambos de centro-direita), tanto que sequer conseguiram lançar um candidato presidencial viável para a eleição de 1998, que acabou vencida por Hugo Chávez. O Copei, conservador, lançou a candidatura de uma ex-Miss Universo, Irene Sáez, tal era o grau de desmoralização das lideranças políticas tradicionais da legenda. 

Então, Chávez assume o governo do país num momento de crise extremamente grave e com as lideranças políticas tradicionais da Venezuela estando totalmente desmoralizadas pela situação catastrófica em que deixaram o país e o povo venezuelano.

Em 1997, ano anterior à vitória de Chávez na eleição presidencial, quase 61% dos venezuelanos viviam na pobreza. E quase a metade destes vivia na pobreza extrema. 

B) Tsipras e o Syriza, e tal como aconteceu na Venezuela, conquistaram a sua vitória na Grécia também como consequência de um cenário econômico e social terrível, com o desemprego passando dos 25% (entre os jovens o mesmo chega perto dos 60%) e com metade do povo grego vivendo abaixo da linha da pobreza. 

Logo, e tal como aconteceu na Venezuela, as lideranças políticas conservadoras e tradicionais gregas também estavam totalmente desmoralizadas, tanto que elegeram menos de 30% dos parlamentares na eleição que ocorreu no início deste ano. ]

Enquanto isso, os partidos de oposição às políticas de austeridade (tanto os de esquerda, como os direita) elegeram mais de 70% dos parlamentares, sendo que o Syriza, sozinho, como já citei aqui, elegeu 149 dos 300, ou seja, 49,7% do total. 

C) Lula também tomou posse na Presidência da República em um momento de crise econômica e social, com a economia brasileira estagnada e o país sendo governado, na prática, pelo FMI. 

Mas o cenário brasileiro econômico e social brasileiro não era tão terrível como os da Venezuela e o da Grécia quando tivemos as vitórias de Chávez (1998) e de Tsipras (2015).

O desemprego, no Brasil, no final de 2002, era de 12,6% (metade da taxa grega e venezuelana quando Chávez e Tsipras tomaram posse) e o percentual da população que vivia abaixo da linha da pobreza em nosso país estava em torno de 34,4%, sendo também bem inferior aos da Venezuela (61%) e da Grécia (50%). 

Além disso, mesmo com a crise que o país enfrentava, as elites tradicionais brasileiras ainda estavam solidamente estabelecidas nas instituições do Estado brasileiro, dominando o Poder Legislativo nas três esferas (federal, estadual e municipal) e tendo uma influência imensa no Poder Judiciário e no Ministério Público. O julgamento da AP 470, que condenou alguns dos principais dirigentes do PT à prisão de forma abusiva e ilegal, é a maior comprovação desse fato. 

A imensa maioria dos governadores de estado (que tem uma grande influência no Congresso Nacional, com muitos deles controlando os votos dos deputados federais e senadores de seus respectivos estados) também pertencem a partidos conservadotres (PSDB, PMDB, PP, PTB, PSB, PSD, entre outros). 

Sem falar no poder imenso que a Grande Mídia brasileira ainda possui, influenciando a forma de pensar e os votos de dezenas de milhões de brasileiros. 

A taxa de desemprego na Grécia, em outubro de 2014, ainda estava em espantosos 25,8%, mesmo depois de quase 6 anos de políticas de austeridade que, segundo a Troika (BCE, FMI, Comissão Europeia) iriam colocar a Grécia no rumo do crescimento econômico e da geração de empregos, mas isso não aconteceu, o que acabou por levar Tsipras/Syriza ao governo do país. 

Tudo isso, é claro, sempre limitou os poderes de governar de Lula e de Dilma. Cobrar deles que governem ignorando a tudo isso é o mesmo que pedir que eles joguem os seus mandatos na lata de lixo. 

É mais do que evidente que caso Lula e Dilma desfrutassem do mesmo poder político que Chávez/Maduro e Tsipras/Syriza conquistaram em seus países, então eles poderiam tomar decisões muito mais ousadas nos aspectos político, econômico, social, entre muitos outros. 

Mas isso não acontece. 

Portanto, pode-se concluir, perfeitamente, que os presidentes Lula e Dilma nunca desfrutaram nem de uma fração sequer do poder político conquistados por Hugo Chávez/Nicolás Maduro na Venezuela e por Alexis Tsipras/Syriza na Grécia.

Assim, qualquer comparação entre as ações de governo de Lula e Dilma com as de Chávez-Maduro/Tsipras-Syriza que ignore todos estes fatores não passa de uma comparação patética, ridícula e sem nenhuma fundamentação na realidade concreta destes três países. 

Link:

Para a Grécia é melhor que Tsipras seja um novo Lula ou um novo Chávez?

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/para-a-grecia-e-melhor-que-tsipras-seja-um-novo-lula-ou-um-novo-chavez/

Ex-Miss Universo é a candidata do Copei para a eleição presidencial de 1998:


http://historico.notitarde.com/1998/05/15/pais/pais1.html


O governo Chávez e as leis habilitantes:


http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/11/1371796-saiba-mais-o-que-e-a-lei-habilitante-da-venezuela.shtml


Nicolás Maduro obtém autorização do Parlamento para governar com o uso de leis habilitantes:


http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-11-19/assembleia-da-venezuela-aprova-lei-que-da-poderes-para-que-maduro-governe-sob-emissao-de-decretos


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Grécia: Centro-Esquerda e Esquerda dominam o novo Parlamento do país! - por Marcos Doniseti!

Grécia: Centro-Esquerda e Esquerda dominam o novo Parlamento do país! - por Marcos Doniseti!

Povo grego votou maciçamente contra as políticas de austeridade impostas ao país pela Troika (BCE, FMI, Comissão Europeia) desde 2009; 211 dos 300 deputados foram eleitos por partidos políticos que são contrários a tais políticas


Avante, Syriza! Vamos desmontar e jogar no lixo essas políticas de austeridade anti-trabalhadores e anti-Nação. 

O novo Parlamento grego ficou dividido desta maneira após a eleição de 25/01/2015:

Syriza (Centro-Esquerda) - 149 deputados;

Nova Democracia (Conservador) - 76 deputados;

Amanhecer Dourado (Neonazista) - 17 deputados;

To Potami (Centro) - 17 deputados;

Partido Comunista (Esquerda) - 15 deputados;

Gregos Independentes (Direita Nacionalista) - 13 deputados;

Pasok (Conservador) - 13 deputados.

Assim, os dois partidos que, até a realização da eleição, eram governistas (Nova Democracia e Pasok, conservadores) elegeram apenas 89 deputados (29,7% do total), tendo sido massacrados nas urnas nesta eleição. 

Na eleição de 2012, juntos, eles haviam conseguido eleger 162 deputados (ND elegeu 129 e Pasok elegeu 33). Assim, agora, em 2015, eles sofreram uma queda de 45% em relação à eleição anterior. 

Já os dois partidos mais à Esquerda (Syriza e Partido Comunista), somados, elegeram 164 deputados (54,7% do total) agora, obtendo um crescimento (juntos) de 97,6%. Em 2012, somados, eles tinham conseguido eleger 83 deputados (Syriza 71 e Comunistas 12). 

E é bom ressaltar o seguinte: com as únicas exceções do Nova Democracia e do Pasok, todos os outros partidos são críticos e condenam as políticas de austeridade imposta ao país nos últimos 5 anos (2009-2014). 

Desta maneira, os partidos anti-austeridade conseguiram eleger 211 deputados (70,3% do total), contra apenas 89 (29,7% do total) dos partidos favoráveis a política de arrocho salarial e de austeridade, que foram responsáveis por elevar a taxa de desemprego para 25% e por colocar 50% dos gregos vivendo abaixo da linha da pobreza. 

Portanto, as políticas de austeridade impostas pela Troika (UE, BCE, FMI) foram as maiores derrotadas nesta eleição grega, que mudou o cenário político europeu, já que comprovou a viabilidade política e eleitoral de uma plataforma política e eleitoral anti-austeridade.

A vitória do Syriza, na Grécia, pode representar o início de uma mudança favorável aos trabalhadores europeus e não se pode descartar a possibilidade de que em outros países da União Europeia outros partidos que adotem, claramente, uma plataforma anti-austeridade venham a ganhar eleições.

Logo, a vitória do Syriza foi importante, mas precisa ser acompanhada de vitórias semelhantes em outros países da UE para que esse movimento anti-austeridade (e não anti-capitalista como alguns dizem por aí) seja vitorioso. 

Na Espanha, por exemplo, o Podemos (cujo programa é muito semelhante ao do Syriza) já lidera as pesquisas eleitorais (obteve 28,2% na mais recente, divulgada no início deste ano) e tem grandes chances de vencer a eleição para o Parlamento espanhol em Novembro próximo.

Assim, essa vitória do Syriza é de grande importância e poderá significar o início de um processo de mudanças na União Europeia. E isso pode muito bem vir a acontecer, pois os europeus estão cansados de tanta austeridade anti-trabalhadores. 

O recado já foi dado pelos gregos. 

Te cuida, Angela Merkel, que a sua hora de perder irá chegar. 

Link:

Divisão do novo Parlamento grego:

http://www.eldiario.es/internacional/Tsipras-mayoria-absoluta-austeridad-Troika_0_349615378.html

O plano de governo do Syriza:

http://observador.pt/2015/01/25/este-e-o-programa-syriza/

Alexis Tsipras é o novo Primeiro-Ministro da Grécia:

http://www.esquerda.net/artigo/oficial-alexis-tsipras-e-o-novo-primeiro-ministro-da-grecia/35579

Vitória do Syriza representa mudanças na UE - Luiz Felipe de Alencastro:

http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/01/26/vitoria-da-esquerda-radical-na-grecia-representa-mudancas-na-ue.htm

Podemos lidera pesquisa eleitoral na Espanha, à frente do PSOE e do PP:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKBN0KK0LW20150111

O plano de governo do Syriza é social-democrata e de centro-esquerda! - por Marcos Doniseti!

O plano de governo do Syriza é social-democrata e de centro-esquerda! - por Marcos Doniseti!

Alexis Tsipras e os gregos comemorando a vitória na eleição para o Parlamento do país, na qual o Syriza obteve 36% dos votos e elegeu 149 dos 300 deputados, chegando muito próximo da maioria absoluta. Esta foi alcançada após o Syriza fechar um acordo com o partido nacionalista Gregos Independentes, que elegeu 13 deputados. 

A Grande Mídia tupiniquim e internacional está se referindo, o tempo inteiro, ao Syriza como sendo um partido político de 'extrema-esquerda'. Oras, os discursos de Alexis Tsipras e o plano de governo defendido em campanha mostram que isso não tem nenhum fundamento.
Tsipras fala o tempo inteiro em rever as condições de pagamento da dívida grega, em acabar com as políticas de austeridade implementadas por imposição da Troika (BCE, FMI, UE) nos últimos 5 anos e que tiveram consequências catastróficas para o povo grego, em restaurar direitos sociais e trabalhistas, em elevar os salários dos trabalhadores. Tudo isso faz parte do programa de governo do Syriza.
Porém, o Syriza deixa bem claro que não deseja que a Grécia abandone a União Europeia e tampouco a Zona do Euro e quer promover estas mudanças de forma negociada com a Comissão Europeia.
Aliás, o Syriza já defendeu, anteriormente, propostas mais radicais, mas tratou de amenizá-las nos últimos anos, a fim de facilitar a sua vitória e mostrar para a União Europeia que eles estão dispostos a negociar. Mas tem um item, fundamental, do qual o Syriza não abre mão, que é colocar um fim às políticas de austeridade impostas pela Troika ao povo grego a partir de 2009. 

Abaixo, publico alguns itens do plano de governo do Syriza:

1) Combater a sonegação;
2) Aumentar o salário mínimo;

3) Restaurar direitos trabalhistas;
4) Taxas grandes propriedades;
5) Subsídiar a alimentação para famílias sem renda;
6) Aumentar o investimento público;
7) Subsidiar as pequenas e médias empresas, para que criem novos empregos;
8) Reestruturar a dívida pública, para que a economia grega possa voltar a crescer;
9) Aumentar os salários e as pensões, para estimular o consumo.
10) Programa de garantia de habitação para a população de baixa renda, com o govenro subsidiando o mesmo (é o Minha Casa Minha Vida grego).


Alexis Tsipras e Lula em reunião no Instituto Lula em Dezembro de 2012. Várias das propostas que constam do plano de governo do Syriza já foram colocadas em prática, no Brasil, pelos governos Lula e Dilma. Exemplo: o aumento do investimento público como forma de se promover o crescimento econômico.

Como se percebe pela leitura do plano de governo do Syriza, não há nada de revolucionário ou extremista no mesmo.
O plano do Syriza é um típico plano de governo reformista, nitidamente de centro esquerda e social-democrata de caráter keynesiano. 
Vários dos itens que constam do mesmo remetem a medidas tomadas pelos governos Lula e Dilma, como a elevação do poder de compra do salário mínimo e o aumento do investimento público como fator de promoção do crescimento econômico. Há até a defesa da criação de uma espécie de 'Minha Casa Minha Vida' grego, com o governo subsidiando a oferta de moradias para a população de menor renda. 
Portanto, não há de nada de misterioso no plano de governo do Syriza. 
Somente um notório maluco ou desinformado pode considerar que tal projeto é de 'extrema-esquerda'. 
O fato concreto é que o Syriza quer apenas restaurar o Welfare State (Estado de Bem Estar Social) que existia no país antes das catastróficas políticas de austeridade terem sido implantadas por determinação da Troika (BCE, UE, FMI).

Resumindo: A Grécia 'petralhou'... rs... 

Links:

Plano de governo do Syriza:

Paul Krugman: Plano de governo do Syriza é mais realista do que o da Troika e não é suficientemente radical:

http://www.esquerda.net/artigo/plano-economico-do-syriza-e-mais-realista-que-o-da-troika-diz-krugman/35580

Alexis Tsipras escreve uma carta aberta ao povo alemão e na qual defende a adoção de um New Deal europeu:

http://www.esquerda.net/artigo/carta-aberta-de-alexis-tsipras-aos-cidadaos-alemaes/35622

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O PT não pode se transformar no Pasok grego! - Marcos Doniseti!

O PT não pode se transformar no Pasok grego! - Marcos Doniseti!

Os governos de Lula e Dilma ampliaram consideravelmente as classes ABC no Brasil, que ganharam 50 milhões de novos integrantes (40 milhões subiram para a classe C e outros 10 milhões ascenderam para as classes AB). Esse processo de inclusão social não pode ser estancado e nem revertido. Se isso acontecer, o PT brasileiro poderá ter o mesmo destino do Pasok grego. 

Uma das principais mudanças que tivemos com essa eleição grega e para a qual a mídia tupiniquim não chamou a atenção foi o virtual esmagamento do tradicional Pasok (Movimento Socialista Pan-Helênico) que foi criado em 1974 por Andreas Papandreou e que reunia as forças da esquerda progressista grega da época.
O Pasok venceu as eleições de 2009 com 43,9% dos votos, mas colocou em prática a política da Troika, de arrocho e de austeridade anti-trabalhadores.

No governo de George Papandreou, Primeiro-Ministro grego, os salários e as aposentadorias foram reduzidas em 40%. E agora o Pasok colheu os frutos dessa opção política equivocada, obtendo apenas 4,7% dos votos e elegendo apenas 13 deputados nesta eleição.
Assim, o partido, que era um dos mais antigos e tradicionais da Centro-Esquerda europeia de orientação Social-Democrata, acabou se afastando de tal forma dos ideais que estavam presentes em sua origem que acabou repudiado pelos mesmos trabalhadores que, antes, votavam maciçamente no partido.
Com isso, fica claro que o eleitorado europeu não está mais perdoando aos partidos de Esquerda e Centro-Esquerda que traem os seus compromissos com a classe trabalhadora e os mais pobres, passando a rejeitá-los nas urnas. O Pasok grego foi literalmente dizimado nessa eleição e dificilmente irá se recuperar do fortíssino processo de desgaste e de enfraquecimento que sofreu. O partido praticamente acabou.
Entendo que isso aconteceu com o Pasok serve de sinal de alerta para o PT brasileiro. Caso o governo Dilma opte por impor políticas de ajuste econômico que venham a sacrificar os interesses dos trabalhadores e a poupar os privilégios das elites, então ele poderá ter o mesmo destino do Pasok.
Que o Brasil precisa promover ajustes em sua economia, isso é inegável, como já escrevi aqui, mas se o custo de tal ajuste recair, principalmente, sobre as costas dos trabalhadores e dos mais pobres, estes poderão acabar por virar as costas ao PT nas próximas eleições, incluindo a eleição presidencial de 2018.
Abre o olho, Dilma! Te cuida, PT!

Link:

Porque os eleitores gregos abandonaram o Pasok, que tinha o voto dos trabalhadores e que já foi o maior partido do país por muitos anos:

domingo, 25 de janeiro de 2015

A vitória do Syriza e as perspectivas da Europa!- Marcos Doniseti!

A vitória do Syriza e as perspectivas da Europa!- Marcos Doniseti!


Alexis Tsipras, líder do Syriza, e o ex-Presidente Lula, em reunião no Instituto Lula, em Dezembro de 2012. 

Um dos motivos para se comemorar a vitória do Syriza na Grécia é que, além de permitir o início de um projeto de reconstrução do país de Sócrates e Platão, agora o exemplo grego poderá começar a se espalhar pela Europa, o que seria muito bom, é claro. 

No final deste ano teremos eleição na Espanha e o 'Podemos', de esquerda (a versão local do Syriza grego... os dois partidos são muito próximos) tem liderado as pesquisas até o momento, à frente do PSOE e do PP, responsáveis por impor políticas de arrocho contra os trabalhadores e os mais pobres.

Outras nações europeias onde a Esquerda anti-austeridade poderia vir a crescer são Portugal e Itália, mas as eleições não estão tão próximas nestes países, infelizmente. 

A  vitória do Syriza foi mais do que previsível, pois as políticas neoliberais de arrocho e de austeridade foram verdadeiramente catastróficas para a Europa. 

Atualmente, o desemprego na UE está em 10%. Na Itália ele está em 13%, na Espanha em 23,7% e na Grécia ele chega a 25%. Os salários foram brutalmente arrochados e direitos sociais, trabalhistas e previdenciários foram eliminados. A concentração de renda disparou, as desigualdades sociais cresceram imensamente, a pobreza e a miséria dispararam. 

E todo esse arrocho, que foi imposto pela Troica (BCE, UE, FMI), não melhorou em nada a situação financeira da Grécia. Atualmente a dívida pública grega equivale a 175% do PIB, contra 165% do PIB de antes do início da crise. O poder de compra da população caiu 40%, empobrecendo enormemente aos gregos. Outro índice que mostra o quanto tal política foi trágica para os gregos é que o número de suicídios cresceu 45% no pais desde o começo da crise, em 2008. 

As políticas de austeridade anti-trabalhadores acabaram elevando a dívida pública, em vez de diminuí-la. Isso era mais do que previsível, pois o PIB grego caiu 25% como resultado do arrocho e da austeridade impostas ao povo da terra de Platão. 

Com uma queda tão forte do PIB, a arrecadação de impostos despencou (até porque com a crise a sonegação também cresceu bastante) e a dívida pública continuou representando uma parcela gigantesca da sua economia, ainda mais do que anteriormente. 


Assim, a política econômica imposta pela Troika (BCE, UE, FMI) fez com que os gregos, em termos de endividamento, ficassem enxugando gelo...


Alexis Tsipras e os seguidores do Syriza comemoram a vitória em Atenas. 

E é claro que, com tudo isso, o poder de compra da população desabou e o consumo desmoronou. Com isso, a inflação já é coisa do passado na UE, mas porque não há consumo. A crise europeia é tão profunda que a Zona do Euro já está em deflação. 

O BCE até anunciou, nesta semana, que irá comprar, mensalmente, 60 bilhões em ativos públicos e privados a fim de estimular a economia do Velho Mundo. Mas é claro que só isso não irá resolver o problema. 

A Europa precisa de muito mais do que isso. Ela necessita abandonar as políticas de austeridade e restaurar o poder de compra e os direitos dos trabalhadores. 

Somente assim será possível voltar a crescer, gerar emprego, elevar a arrecadação de impostos e, daí sim, reduzir a dívida pública. Será o aumento do PIB que irá reduzir a dívida pública e não a sua diminuição.

As propostas de governo do Syriza caminham justamente nessa direção. Esse é o caminho correto a ser seguido pela UE e não aquele imposto pela Troica, que foi verdadeiramente catastrófico.

Por isso é mais do que justificável comemorarmos essa importante vitória do Syriza na Grécia. Que o exemplo grego se espalhe pelo Velho Mundo e quanto mais rapidamente isso acontecer, melhor será. 

Avante, Syriza! 


Links:

Na Grécia, política de austeridade reduziu poder de compra em 40%:

http://pt.euronews.com/2015/01/19/alexis-tsipras-campeao-da-esperanca-numa-grecia-em-crise/

Troika e austeridade viraram coisas do passado na Grécia, diz Alexis Tsipras:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39281/troika+e+austeridade+viraram+coisas+do+passado+na+grecia+diz+lider+do+syriza+apos+vitoria.shtml#/0

Alexis Tsipras:  Vitória do Syriza significa o fim da Troika:

http://www.esquerda.net/artigo/tsipras-o-veredicto-do-povo-grego-significa-o-fim-da-troika/35574

Com a vitória do Syriza, enfim há esperança:

http://www.esquerda.net/opiniao/esperanca-em-grego-diz-se-syriza/35557

Metade dos gregos vive abaixo da linha de pobreza:

http://www.esquerda.net/opiniao/avancos-e-recuos/35566

BCE comprará 1 trilhão de Euros em ativos públicos e privados até Setembro de 2016:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/22/economia/1421930158_392049.html

Vitória do Syriza poderá beneficiar o governo Dilma - por Marcos Doniseti!

Vitória do Syriza poderá beneficiar o governo Dilma - por Marcos Doniseti!

Syriza vence a eleição na Grécia e poderá ter maioria absoluta no Parlamento

Militantes do Syriza comemoram a vitória do partido nas eleições para o Parlamento grego. Sua vitória mostra, claramente, que a população do Velho Mundo está cansada e repudia as políticas 'de austeridade' anti-trabalhadores que foram colocadas em prática nos últimos anos.

As pesquisas boca-de-urna mostram que o Syriza terá entre 35,5% e 39,5% dos votos, tendo grandes chances de conquistar a maioria absoluta no Parlamento grego. O partido conservador que, atualmente, governa a Grécia, o Nova Democracia, terá a segunda maior bancada.
A vitória do Syriza poderá beneficiar o governo Dilma. Como? Simples: Com a vitória do Syriza, na Grécia, as políticas de austeridade estão com os dias contados na Europa. Elas são insustentáveis politicamente. Governos que insistirem nas mesmas estarão com os dias contados e serão repudiados pelo povo nas urnas.
Neste novo cenário político, a União Europeia terá que, obrigatoriamente, tomar mais medidas para estimular economia do Velho Mundo, que enfrenta uma Longa Recessão e tem uma taxa de desemprego de 10% (sendo que esta é de 13% na Itália, 23,7% na Espanha e 25% na Grécia).

Com isso, a economia europeia deverá voltar a crescer e, desta maneira, as exportações brasileiras para a UE poderão se expandir.

Além disso, um maior crescimento da economia europeia irá estimular o crescimento de outras regiões do planeta, como a China, que exportam muito para a Europa. E as exportações do Brasil para essas outras regiões também poderão vir a crescer. 
Logo, essa vitória do Syriza na Grécia poderá significar uma reviravolta no cenário econômico mundial, pois sinaliza que a população do Velho Mundo não suporta mais tanta austeridade, assim. As pessoas querem empregos, salários melhores, bem como recuperar seus direitos trabalhistas e previdenciários.

Essa deverá ser a composição do novo Parlamento da Grécia, no qual o Syriza tem grandes chances de obter a maioria absoluta. 

E os governantes europeus que insistirem em ignorar a 'voz das urnas', terão o mesmo destino do partido conservador 'Nova Democracia' grego, ou seja, serão derrotados e mandados de volta para casa a fim de que repensem as suas ideias e políticas.
Basta de austeridade anti-trabalhadores!
Avante, Syriza!

Links:

Syriza lidera as pesquisas boca-de-urna:

Boca-de-urna aponta ampla vitória do Syriza na Grécia:

sábado, 24 de janeiro de 2015

Apoiando o governo Dilma por convicção e não por mero oportunismo! - Marcos Doniseti!

Apoiando o governo Dilma por convicção e não por mero oportunismo! - Marcos Doniseti!

É fácil apoiar um governo quando ele a situação está indo de vento em popa. Quero ver apoiar no momento das dificuldades... Daí, os oportunistas rasteiros desaparecem e vão todos para a oposição. 

Quem apoia um governo somente nos bons momentos e o abandona na época de dificuldades não passa de um reles oportunista de m...
Eu apoio Dilma, sim, mesmo agora, quando o Brasil enfrenta as consequências do agravamento da crise econômica mundial que começou em 2007-2008 e que é a pior desde a Grande Depressão dos anos 1930.
O fato concreto é que o cenário econômico mundial piorou muito nos últimos 18 meses.
Basta ler e se informar a respeito (não pelo PIG, é claro) para se constatar isso.
Uma pesquisa rápida na Internet a respeito da situação das maiores economias do mundo (quanto ao seu ritmo de crescimento) será mais do que suficiente para se comprovar isso. Vou citar um exemplo: Os preços dos principais produtos de exportação desabaram no mundo desde o final de 2013. A soja sofreu uma queda de 26% em seu valor. E a cotação do minério de ferro despencou 33% apenas em 2014.
Estes são fatores econômicos sobre os quais o governo brasileiro não tem qualquer controle ou influência, pois os preços dos principais produtos de exportação do Brasil são definidos no mercado internacional.
E é claro que, em função disso, o Brasil foi imensamente prejudicado, já que o valor das suas exportações caiu e, com isso, tivemos o primeiro déficit comercial desde a posse de Lula, em 2003. E desta forma, o déficit externo (em transações correntes) também cresceu, atingindo um patamar muito preocupante, de 4,17% do PIB em 2014, o que é um nível muito elevado e que não pode se manter neste patamar por muito mais tempo, pois isso acarretará uma futura crise econômica e financeira de grandes proporções no país.
Outro exemplo dessa deterioração da economia mundial foi que economias importantes como as da UE, Rússia, Japão e Venezuela entraram em recessão. E outras grandes economias, como as da China (um dos maiores mercados de exportação do Brasil) e da Índia, desaceleraram fortemente o seu ritmo de crescimento. A economia chinesa cresceu apenas 7,4% em 2014, o que é o seu menor ritmo de expansão em 24 anos. O crescimento da América Latina desabou em 2014, para pouco mais de 1%.
Antigamente, as crises econômicas eram mais restritas, localizadas, duravam menos tempo e eram mais fracas. Agora, isso não acontece mais. Então, por exemplo, quando a Europa entrava em crise, o Brasil direcionava as suas exportações para os outros mercados, que continuavam em expansão.
Mas, com essa crise global que começou em 2007-2008 não é mais possível fazer isso, pois todos os grandes mercados do mundo estão em crise (China, UE, Índia, Rússia, A.Latina, O.Médio, África).
Somente os EUA vivem, neste momento, uma fase de recuperação, mas em função de que a sua crise nos anos anteriores foi bastante profunda, com a taxa de desemprego tendo atingido os 10% em 2009. Além disso, as medidas tomadas por Obama e pelo FED (como a de estímulo monetário, por meio da qual o FED injetava US$ 80 bilhões mensalmente na economia. Tal política começou em 2009 e deu bons resultados, estimulando a economia e reduzindo o desemprego, que agora está em 5,6% nos EUA (contra 10% na UE).
Então, é claro que o governo Dilma, se quiser ser minimamente responsável na administração do país, é obrigado a adotar medidas de ajuste a esta nova situação econômica mundial. O quadro da economia global piorou muito desde o segundo semestre de 2013 e o Brasil foi, sim, bastante afetado por isso e, agora, teremos que apertar um pouco os cintos para poder passar incólume por este momento extremamente difícil da economia global e evitar uma crise infinitamente pior no futuro.
Os próximos dois anos, 2015-2016, em especial, serão os mais difíceis desde que Lula tomou posse na Presidência em 2003. Neste momento é que veremos quem, de fato, apoia um governo por convicção e não por mero oportunismo barato.
É isso.

Links:

Primeiro mandato de Dilma termina com a criação de 4,8 milhões de empregos com carteira assinada:

China cresce apenas 7,4% em 2014, a menro taxa em 24 anos:

Preço da soja cai 10,7% em 2013 no mercado internacional; cotação do milho desaba 17,3%:

Cotação do minério de ferro despencou de US$ 180/tonelada para menos de US$ 70/tonelada:

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O ajuste econômico-financeiro nos governos Lula e Dilma! - por Marcos Doniseti!

O ajuste econômico-financeiro nos governos Lula e Dilma! - por Marcos Doniseti!

Lula promoveu um ajuste econômico e financeiro muito mais duro do que aquele que Dilma adota agora, mas o fez num momento favorável, quando a economia e o comércio mundiais cresciam rapidamente. Dilma terá que fazer o ajuste em um momento de grave crise global, com a economia e o comércio mundiais estagnados. 


O Presidente Lula fez um duro ajuste econômico-financeiro, entre 2003-2005, mas contou com uma economia mundial em expansão que o ajudou muito a conseguir realizar o mesmo sem que tivesse que promover uma recessão, embora a situação econômica-financeira do Brasil fosse infinitamente pior do que a atual. 

Assim, por exemplo, em 2002 a dívida pública líquida era de 60,4% do PIB, a dívida externa representava 45% do PIB, as reservas internacionais líquidas eram de apenas US$ 17 bilhões, a taxa Selic terminou o ano em 25% ao ano, as exportações foram de apenas US$ 60 bilhões, a produção de veículos foi de 1,7 milhão de unidades, o Brasil era apenas a 15a. economia mundial e a safra de grãos foi de 97 milhões de toneladas.

Agora, em 2014, a dívida pública líquida é de 36% do PIB, a dívida externa representa 17% do PIB, as reservas internacionais líquidas são de US$ 375 bilhões, a taxa Selic está em 12,25% ao ano, as exportações foram de US$ 242 bilhões em 2013, a produção de veículos foi de 3,3 milhões de unidades, o Brasil é a 7a. economia mundial e a safra de grãos foi de 193,5 milhões de toneladas em 2014, devendo ultrapassar os 201 milhões de toneladas em 2015.

Então, e muito diferente do que a Grande Mídia reacionária, mentirosa e golpista gosta de dizer, a situação econômica e financeira do país, hoje, é infinitamente melhor do que aquela que tínhamos ao final do governo FHC, quando Lula herdou uma brutal crise econômica e financeira do governo tucano.

No início do seu primeiro mandato, o então presidente Lula aumentou a taxa Selic (de 25% para 26,5% ao ano), elevou o superávit primário (para, no mínimo, 4,25% do PIB ao ano; na prática ele foi maior do que isso) e cortou os gastos públicos. 

Em 2004, o governo Lula alcançou um superávit primário de 4,61% do PIB. Hoje, fazer algo assim é absolutamente impensável, tanto que a meta é de apenas 1,2% do PIB em 2015 e de 2% do PIB em 2016-2017. Este será, portanto, um esforço fiscal bem menor do que aquele promovido pelo governo Lula entre 2003-2005. 

Mas, na época do governo Lula, a economia mundial e o comércio internacional cresciam rapidamente, em um ritmo poucas vezes visto no pós-Guerra (1945 em diante). 

Com isso, nos três primeiros anos do governo Lula, a economia do Brasil cresceu estimulada pelo aumento das exportações, o que foi possível devido ao rápido crescimento de economias como a da China, Índia, A.Latina, Oriente Médio, África, etc. 

As economias destes países cresciam rapidamente, naquele momento, e havia espaço para que o Brasil pudesse aumentar as suas exportações para os mesmos, tal como o então Presidente Lula percebeu. 

Lula teve o mérito de perceber isso e tratou de promover uma série de acordos comerciais com tais países (China, Índia, O.Médio, etc), abrindo novos mercados para os principais produtos de exportação brasileiros.

Com isso, nos anos seguintes, tanto as exportações, quanto o superávit comercial brasileiro, cresceram de forma bastante rápida. E como resultado disso as exportações brasileiras quadruplicaram entre 2003-2013 (passando de US$ 60 bilhões em 2002 para US$ 242 bilhões em 2013) e o país acumulou um superávit comercial de US$ 311 bilhões entre 2003-2013. 

Em seu segundo mandato, a presidenta Dilma terá que fazer um ajuste econômico-financeiro bem menos duro do que o realizado no governo Lula, mas enfrenta um cenário mundial péssimo e que está piorando. 

E o Brasil, que ficou relativamente imune à crise mundial iniciada em 2007-2008 (e que é a pior desde a Grande Depressão da década de 1930, algo que os economistas e colunistas econômicos da Grande Mídia tupiniquim insistem em ignorar ou esquecer), finalmente foi atingido com mais intensidade pela mesma justamente em 2014. 

Com isso, pela primeira vez desde a posse de Lula, em 2003, o Brasil fechou 2014 com déficit na balança comercial (de US$ 3,9 bilhões). E o mesmo ocorreu em função da grande queda que atingiu os preços dos principais produtos de exportação do Brasil a partir do segundo semestre de 2013. 

Tanto a economia como o comércio mundial estagnaram nos últimos anos e algumas das maiores economias mundiais estão em recessão (Japão, Rússia, UE) ou em processo de forte desaceleração, passando a crescer muito menos do que antes (China, Índia, A.Latina). Os EUA ficaram estagnados por muitos anos e a sua recuperação é recente. Somente agora é que a taxa de desemprego ianque chegou ao patamar de 5,6% (contra 4,8% no Brasil), mas a mesma ainda é maior do que aquela que existia antes da crise do subprime (era de apenas 4,4% em 2007). 

Assim, a ideia de que o Brasil, agora, possa voltar crescer puxado pelo aumento das exportações (tal como aconteceu entre 2003-2005) já pode ser descartado. 

Afinal, iremos exportar mais para quem, se a economia mundial e o comércio internacional estagnaram? Para os marcianos? Sem chance. 

E na época do primeiro mandato de Lula também tivemos uma maxidesvalorização do Real (ocorrida em 2002) que levou o dólar a R$ 3,54 no final do governo FHC. 

Isso barateou os produtos de exportação do país e encareceu os importados, contribuindo para o crescimento do superávit comercial brasileiro, embora o motivo para tal máxi tenha sido a virtual falência do país, tanto que FHC teve que, em 2002, recorrer pela terceira vez ao FMI, do qual emprestou (apenas em 2002) US$ 30 bilhões a fim de evitar a decretação de uma moratória da dívida externa. E como qualquer pessoa minimamente bem informada sabe, somente países falidos recorrem ao FMI. 

Portanto, pode-se perfeitamente concluir que, embora o ajuste econômico-financeiro que Dilma irá promover em 2015-2017, será bem menos duro do que aquele que Lula promoveu em 2003-2005, o mesmo se dará num ambiente econômico global muito ruim e que piora a cada ano que passa. Não há, neste momento, nenhuma perspectiva de retomada do crescimento econômico mundial, muito pelo contrário.

A China cresceu apenas 7,4% em 2014 e a previsão para 2015 é de 6,8% para 2016 é de apenas 6,3%. A União Europeia entrou em processo de deflação, ou seja, a demanda está tão fraca que os preços estão caindo. Se essa deflação não for interrompida, e rapidamente, a economia europeia poderá entrar em uma Depressão econômica. 

Em alguns países, como são o caso da Grécia e da Espanha, a população já demonstra, claramente, a sua revolta e imensa insatisfação com as políticas de arrocho salarial e de cortes nos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, e os partidos que lideram as pesquisas mais recentes em ambos os países (que enfrentam as maiores taxas de desemprego da Europa, 23,7% na Espanha e 26% na Grécia) defendem o fim destas políticas neoliberais e recessivas. 

A Grécia enfrentará uma eleição, neste final de semana, onde tudo indica que o Syriza (partido de Esquerda) deverá sair vencedor e com grandes chances de conseguir alcançar a maioria absoluta no Parlamento. E tal partido já deixou claro que irá encerrar as políticas de arrocho adotadas pelos governos conservadores do país nos últimos anos, que se submeteram inteiramente às medidas determinadas pela Troika (BCE, Comissão Europeia e FMI).

A Rússia, a Venezuela e demais países exportadores de petróleo já estão sofrendo o impacto da forte queda dos preços do produto que aconteceu nos últimos meses (queda foi superior a 60%) e já estão entrando em recessão. A América Latina cresceu em 2014 bem menos do que aquilo que havia sido previsto no início do ano. 

Os EUA ensaiam uma recuperação neste ano, mas muito em função de sua economia ter ficado estagnada nos anos anteriores e também como resultado do crescimento do petróleo de xisto, mas que, agora, já começou a entrar em crise devido à redução de preço. Empresas do setor já começaram a quebrar nos EUA.

Esse cenário econômico mundial teve um forte impacto sobre os preços de alguns dos principais produtos de exportação do Brasil. O preço da soja caiu 26% e o do minério de ferro despencou 33% apenas em 2014. Com isso, o Brasil registrou em 2014 o seu primeiro déficit comercial da era Lula-Dilma e que chegou a US$ 3,9 bilhões. 

E com isso, também tivemos um forte aumento do déficit externo, em transações correntes, e que chegou a 4,05% do PIB no acumulado de doze meses terminado em Novembro de 2014. Tal patamar é muito elevado e precisa ser reduzido nos próximos anos a fim de se evitar maiores complicações para a situação econômica e financeira do país. 

Tal cenário mundial extremamente ruim puxou, é claro, o crescimento econômico brasileiro para baixo (o PIB deve ter crescido menos de 0,5% em 2014), o que afetou negativamente a arrecadação de impostos. E como o governo Dilma também tomou uma série de medidas para evitar uma recessão e impedir o aumento do desemprego (redução de impostos e desoneração da folha de pagamento, em especial), o resultado disso foi uma piora da situação das contas públicas. 

Aliás, o Brasil somente não foi fortemente atingido pela crise mundial iniciada em 2007-2008 devido às políticas anticiclícas keynesianas adotadas pelos governos Lula e Dilma, que implicaram numa combinação de medidas anti-recessivas, tais como o aumento dos investimentos públicos (da Petrobras, em infra-estrutura), elevação dos gastos sociais (Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, ProUni, etc), aumentos reais anuais para o salário mínimo, redução de impostos (para os automóveis, por exemplo) e a desoneração da folha de pagamento para inúmeros setores da economia brasileira. 

Com a continuidade e agravamento da crise econômica mundial e as medidas anti-ciclícas vigorando por vários anos consecutivos, o déficit público nominal em 2014 chegou a 6,06% do PIB (até Novembro), contra 3,25% do PIB em 2013. E a dívida pública líquida que estava em processo de queda, voltou a subir, embora a mesma ainda esteja num patamar administrável (36% do PIB), sendo bastante inferior aos 60,4% do PIB do final de 2002. 

Foi devido a déficits externos e público tão elevandos quantos esses que o governo FHC fracassou. Os déficits contínuos, em patamares altíssimos, durante vários anos seguidos, levaram a sucessivos colapsos da moeda brasileira, com seguidas maxidesvalorizações acontecendo em 1999, 2001 e em 2002. Não foi à toa que, justamente nestes três, anos o Brasil teve que recorrer a empréstimos do FMI a fim de não ter que decretar moratória da dívida externa (tais empréstimos chegaram a US$ 86,5 bilhões no governo tucano). 

Ainda estamos, felizmente, longe de um cenário desse tipo, mas se nada fosse feito pelo governo Dilma nos próximos anos para diminuir esses déficits (comercial, público e externo), então caminharíamos para um mais do que previsível colapso econômico e financeiro, o que levaria a jogar por terra todas as mais relevantes conquistas dos últimos 12 anos, tais como a redução da concentração de renda, da pobreza, do desemprego e a ampliação do mercado consumidor do país, que incorporou 40 milhões de pessoas ao mesmo e permitiu a ascensão social e econômica de 50 milhões (40 milhões ascenderam para a classe C e outros 10 milhões para as classes AB).

O fato concreto é que as políticas anti-ciclícas keynesianas do período 2008-2014 chegaram ao seu limite e, agora, será necessário adotar medidas de caráter restritivo a fim de se promover, de maneira gradual, uma redução do déficit público nominal, do déficit em transações correntes e a volta do superávit comercial. 

Uma das razões para que tal política anti-ciclíca keynesiana tenha se esgotado foi a queda dos investimentos do setor privado, principalmente do industrial, nos últimos anos, mesmo com o governo federal tendo tomado várias medidas para estimular o investimento (TJLP ficou em apenas 5% ao ano, empréstimos do BNDES cresceram fortemente, tivemos desoneração da folha de pagamento e redução de impostos para vários setores importantes da economia). 

Assim, tudo indica que tivemos, no Brasil, no segundo governo Dilma, uma espécie de 'Greve do Capital'. 

Os capitalistas simplesmente se recusaram a investir nos termos definidos pelo governo federal. E é claro que isso colaborou bastante para reduzir o ritmo de crescimento da economia brasileira. 

Não foi à toa, aliás, que a presidenta Dilma nomeou uma equipe econômica, para o seu segundo mandato, formada por economistas que tem fortes conexões com os grandes capitalistas. Ela tem, claramente, o objetivo de recuperar  a confiança e o apoio destes setores para que os mesmos promovam novos investimentos a fim de que o país possa voltar a crescer, após a realização dos ajustes econômicos e financeiros previstos para o triênio 2015-2017.

Portanto, não esperem boas notícias da área econômica neste e no próximo ano, principalmente

Os próximos dois anos (2015-2016) e parte de 2017 serão bastante complicados, sem dúvida alguma, mas se o ajuste econômico promovido por Dilma for bem sucedido, então as conquistas dos últimos 12 anos (desemprego baixo, aumento do poder de compra dos salários, ampliação do mercado consumidor, redução da concentração de renda, da pobreza e das desigualdades sociais) poderão ser mantidas. 

E a economia brasileira poderá entrar em um novo ciclo de crescimento econômico após a realização deste ajuste, tal como aconteceu com o país após o ajuste promovido por Lula entre 2003-2005. 

Mas é claro que, para isso, a economia e o comércio mundiais também terão que ingressar numa nova era de expansão. Caso contrário, tudo ficará muito mais difícil. 


Links:

Governo Lula obtém superávit primário de 4,61% do PIB em 2004:

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,superavit-primario-do-setor-publico-fica-acima-da-meta,20050128p6162

Em 2014, China cresce apenas 7,4%, a menor taxa em 24 anos:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/20/economia/1421727104_207841.html

Consumo de aço cai 3,4% na China:

http://exame.abril.com.br/economia/noticias/consumo-aparente-de-aco-pela-china-cai-3-4-em-2014?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

Barril do petróleo sofreu queda de 60% desde Junho de 2014:

http://www.vermelho.org.br/noticia/257299-2

FMI está preocupado com o crescimento do Podemos na Espanha:

http://www.esquerda.net/artigo/fmi-esta-preocupado-com-o-crescimento-do-podemos/35515

Não governaremos com a Troika, diz líder do Syriza:

http://www.esquerda.net/artigo/tsipras-reforca-apelo-maioria-absoluta/35533

Queda dos preços das commodities prejudica exportações brasileiras:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/10/1536683-brasil-deve-perder-us-11-bilhoes-em-2015-com-queda-das-commodities.shtml

Déficit público nominal chegou a 6,06% do PIB em Novembro de 2014:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/12/contas-do-setor-publico-tem-pior-novembro-da-historia-revela-bc.html

Balança comercial brasileira registra déficit de US$ 3,9 bilhões em 2014:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/balanca-comercial-registra-em-2014-primeiro-deficit-desde-2000.html

Primeira empresa de xisto quebra nos EUA:

http://portuguese.ruvr.ru/news/2015_01_09/Declarada-a-fal-ncia-da-primeira-empresa-de-xisto-nos-Estados-Unidos-9031/

Déficit externo chega a 4,05% do PIB em Novembro de 2014:

http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPEXT

Taxa de desemprego nos EUA cai para 5,6% em Dezembro de 2014:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39097/taxa+de+desemprego+nos+eua+cai+para+56+em+dezembro.shtml